

Existe um fato que temos que encarar: às vezes, organizações passarão por situações em que precisam fazer mudanças em suas equipes. Dada a natureza do cenário de esports, ainda em desenvolvimento, podem acontecer contratações de atletas que já demonstraram desalinhamento com valores e crenças da organização. Essa é uma questão pela qual eu passo na FURIA, e outras pessoas também devem encarar em outros times. Portanto, gostaria de falar mais profundamente sobre isso e ter a oportunidade de explicar como pensamos e como vai agir a organização que trouxe o conceito "Future is Black".
Antes de tudo, partimos do princípio de que acreditamos firmemente que a educação é uma ferramenta poderosa para a evolução. O reingresso na comunidade e o processo de entrada desse atleta é primeiramente pautado na diversidade, e depois na performance. Assim, falando como FURIA, se não há fit cultural com o atleta, a performance dele não será um fator determinante para sua entrada. Se o atleta entra na organização, é porque existiu um interesse que avaliamos como legítimo em fazer parte do processo de transformação social e impacto que propomos.
A educação social é uma ferramenta indispensável para a evolução de uma sociedade e de seus membros. Ela não só capacita os indivíduos a se tornarem membros produtivos e respeitados, mas também, em determinados casos, promove a correção de comportamentos inadequados. Para que cada vez haja mais eficácia, é essencial garantir que todos tenham a oportunidade de aprender, crescer e evoluir. Também por isso, é importante que os torcedores saibam que a FURIA é, para além de um movimento social, um propulsor de mudanças através do aprendizado. E existe uma origem para isso.
Em 2003, o governo brasileiro assinou uma lei aprovada pelo Congresso Nacional que previu a inclusão da história e da cultura afro-brasileira, por exemplo, nos currículos de todas as escolas públicas e privadas do Brasil (Lei 10.639). Infelizmente, a lei, que em janeiro completou 20 anos, ainda não conseguiu cumprir de fato o seu papel. De acordo com um levantamento recente dos institutos Geledés (dedicado aos direitos da população negra) e Alana (à proteção da criança), somente 29% das prefeituras (responsáveis pela educação infantil e pelo ensino fundamental) incluem a temática racial de forma satisfatória na grade curricular das escolas municipais. (Fonte: Agência Senado)
A coisa não melhora em outras frentes. Ainda pensando em uma educação voltada para a inclusão de diversidade social, temas como pessoas com deficiência, machismo e LGBTfobia têm números ainda menores, algo controverso uma vez que promover a educação social é uma estratégia não apenas de justiça e equidade mas também de desenvolvimento econômico e social sustentável. Quanto mais desenvolvido esse trabalho nas organizações, mais é possível notar as diferenças comportamentais nos colaboradores, em suas comunidades e nos resultados.
Quando pensamos em um movimento educacional na FURIA, estamos falando sobre usar nossas ferramentas em prol do desenvolvimento não só dos nossos colaboradores, mas de todas as pessoas conectadas conosco. Ao criar uma comunicação externa transparente e respaldada no cenário, nosso objetivo é causar desconforto - ou conforto em quem está à nossa volta. É como um compromisso: nós nos forçamos a garantir que cada atleta, colaborador ou fã pertencente a nossa comunidade, independentemente de sua origem, ou história, tenha a oportunidade de prosperar em nosso cenário esportivo eletrônico oferecendo, dentro de todas as nossas regras e limitações, uma nova oportunidade de desenvolvimento.
No ano passado, reiteramos nosso compromisso com a pauta racial e a inclusão de pessoas racializadas dentro do cenário esportivo. Ao firmar esse compromisso, e claro reconhecendo que há um longo caminho a percorrer para alcançar a igualdade e a justiça dentro de nossa indústria, entendemos que não basta apenas educar, transformar e evoluir os indivíduos mais afetados pela pauta racial. É necessário preparar o cenário como um todo para essa transformação.
Nosso processo educacional é projetado para oferecer suporte e orientação a todas as pessoas dispostas a se reeducar. Reconhecemos que todos somos humanos e sujeitos a falhas, mas é a maneira como respondemos a essas falhas que define nosso caráter e nosso potencial de crescimento. Muitas coisas estão mudando internamente, pensando que, enquanto não há profissionais competitivos suficientes para representar nossas frentes de DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão) desenvolvidos e prontos, nós iremos buscar um programa de educação social para letrar quem já está no Tier-S.
A idéia é que esse programa tenha algumas atribuições:
Criação de Consciência: Nossa educação começa com a criação de consciência sobre questões relacionadas a diversidade, inclusão e equidade. Queremos que nossos atletas compreendam a importância desses temas e como suas ações podem impactar positiva ou negativamente as pessoas ao seu redor.
Desenvolvimento de Habilidades: Oferecemos workshops e treinamentos que visam desenvolver habilidades essenciais, como empatia, comunicação eficaz e resolução de conflitos. Essas habilidades são fundamentais não apenas para o sucesso no esports, mas também para a construção de relacionamentos saudáveis e inclusivos.
Apoio Individualizado: Reconhecemos que cada atleta é único e pode enfrentar desafios específicos em seu processo de evolução. Portanto, oferecemos apoio individualizado, que pode incluir sessões de aconselhamento, mentoria ou recursos adicionais, conforme necessário.
Oportunidades de Engajamento Comunitário: Incentivamos nossos atletas a se envolverem ativamente em iniciativas comunitárias que promovam a diversidade, inclusão e equidade. Isso não apenas ajuda a construir uma imagem positiva da nossa organização, mas também permite que os atletas contribuam de forma significativa para a sociedade.
Monitoramento e Avaliação Contínua: Nosso compromisso com a evolução não termina com a conclusão do programa educacional. Continuamos a monitorar e avaliar o progresso de nossos atletas, fornecendo feedback construtivo e oportunidades adicionais de desenvolvimento.
A FURIA está comprometida em liderar pelo exemplo, demonstrando que a mudança é possível e que juntos podemos criar um futuro melhor para o cenário de esports brasileiro. Através da educação, estamos construindo um legado de inclusão, diversidade e igualdade que será lembrado por gerações.